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Onde estão os filhos e netos destas pessoas? É assim tão difícil ter um dia da semana destinado à avó? Os putos estão assim tão ocupados com o business plan idealizado pelos pais?

A rua principal do meu bairro está cheia de bancos e cafés apinhados de idosas. Aquelas que se sentam nos bancos costumam estar sozinhas com cães. Aquelas que se sentam nos cafés costumam estar em grupo; muitas vezes, estes grupos são tão silenciosos como tumbas; as senhoras limitam-se a estar, juntam-se como pinguins ao frio.

Quando passo com as minhas filhas, elas olham para nós com ar espantado; sinto-me como o pai dos filmes distópicos que retratam um mundo estéril e onde só existe uma criança viva. É como se as minhas filhas fossem uma raridade absoluta. E sabem qual é o problema? As minhas pequenas são mesmo uma extravagância. Um pai rodeado por duas filhas tornou-se numa espécie em vias de extinção. Em Portugal, temos uma taxa de natalidade de 1.2 bebés por mulher. Ou não há filhos, ou há apenas um por casal. Por outras palavras, a família implodiu. A família não é um gigante com pés de barro, é um gigante já de joelhos e à espera do tal “golpe de misericórdia” invocado pelos defensores da eutanásia.

Quando me sento nas mesas do café, sinto que este colapso familiar é total. Enquanto dou torradas às miúdas, vou ouvindo as conversas das senhoras, que até fazem questão de serem escutadas por estranhos. O padrão do discurso é quase sempre o mesmo: vão falando aos poucos de ninharias como Mário Centeno ou a chuva, até que uma delas dá um murro na mesa, “o meu filho zangou-se comigo” ou “a minha nora é impossível”. Assim que se ouve este primeiro tiro, as outras começam de imediato a fazer as suas queixas, umas por cima das outras, numa algaraviada de ressentimento.

Não querem conversar, querem metralhar desabafos: “não me vêm ver”, “não vejo o meu neto há semanas”, “passaram o ano fora”, “só aparece para ver a SportTv”, “porque é que não têm outro filho, podiam perfeitamente”, etc., etc. Quando a tempestade amaina, olham para mim e para as minhas filhas; algumas não resistem e pedem licença para lhes tocar. Querem sentir o toque de outra pessoa. Ora, onde estão os filhos e netos destas pessoas? É assim tão difícil ter um dia da semana destinado à avó? Os putos estão assim tão ocupados com o business plan idealizado pelos pais? Sim, business plan: às segundas, têm explicações de matemática; às terças, inglês; às quartas, natação; às quintas, talvez mandarim, que é uma língua com saída; às sextas, karaté ou ballet; ao fim-de-semana, têm milhentas actividades e festinhas de anos onde nunca estão velhos. Isto não é um pormenor.

Andamos a matar a figura da “avó”, que não tem espaço nesta sociedade de Facebook, de festinhas de anos temáticas e caríssimas onde só cabem crianças, das viagens turísticas constantes cujos pacotes nunca incluem a velhinha.

A actual imposição da eutanásia é apenas uma consequência lógica desta eutanásia metafórica da figura da “avó” e do “avô”. Se vivem nesta solidão, se nunca passam férias com os netos, se percebem que são um fardo no dia-a-dia, é óbvio que estas senhoras são e serão ainda mais tentadas pela eutanásia. Até porque conhecem um facto que escapa à maioria: a maior parte das mortes ocorre no hospital. Portugal tem uma das taxas mais altas de óbitos em ambiente hospital. Um idoso que morre na sua própria cama é quase tão raro como um pai rodeado por dois filhos. Portanto, as pessoas que estão contra a eutanásia devem preparar o espírito para nova derrota, porque estamos a jogar no campo do adversário.

Durante décadas, à esquerda e à direita, diversas ideologias atacaram a família como célula base da sociedade. O resultado está aí: milhares e milhares de velhos vivem mais devido ao avanço da medicina, mas estes anos extra são um calvário de solidão. Sim, devemos lutar a jusante contra esta tentativa de legalização da eutanásia directa, mas devemos sobretudo centrar atenções no problema que está a montante: a efectiva destruição da família.

Aquelas senhoras não podem continuar a olhar para as minhas filhas com aquele semblante de temor, não podem continuar a ser pinguins cercadas por um gelo criado pelos próprios filhos e netos. Se não tivermos um discurso e uma política para esta eutanásia familiar, a lógica gélida da eutanásia triunfará sem oposição.

Fonte: Resnacença

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A eutanásia da avó
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