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Maria José Nogueira Pinto
Diário de Notícias :: 2008.07.03

Há mais de 20 anos entregaram-me o Arquivo Histórico da Misericórdia de Lisboa. Fui ver como era e deparei-me com uma cave escura, uma entrada de garagem, no chão poças de água suja, beatas e folhas soltas do Crime e da Bola.
Não era um começo promissor, mas segui em frente acolitada por uma equipa feita com a prata da casa e um jovem estagiário licenciado em História.

O simples gesto de abrirmos as primeiras caixas e de desatarmos os cordéis que amarravam os pacotes poeirentos e amarelados pareceu revelar–se como que uma profanação, só atenuada pela reverência da nossa curiosidade. Do primeiro maço de cartas constavam as guias de remessa de recém-nascidos, assinadas pelo Enfermeiro-Mor do Hospital de Todos-os-Santos. Eram os sobreviventes de gravidezes ocultas, famintas e desamparadas que haviam causado a morte das mães.
Mas foi das caixas que saíram, intactos no meio do farelo em que o papel se tinha transformado, os primeiros sinais dos expostos. Havia sinais de todos os géneros: os de pedras preciosas, ouro e prata ou confeccionados em tecidos ricos como o brocado, o veludo ou a seda revelavam a origem nobre do exposto; outros, muito mais modestos, eram feitos em tecidos pobres, bordados em singelo ponto de cruz ou ponto pé-de-flor e, por vezes, uma pequena medalha.

Enquanto que das crianças enviadas pelo Enfermeiro-Mor não se sabia mais nada, as que eram deixadas na Roda levavam, quase sempre, aquele sinal. Mãos amorosas tinham-nos confeccionado no desespero de uma circunstância fortuita e na esperança de um reencontro futuro. As mãos que abandonavam eram as mesmas. Paradoxo? Não me parece; apenas um derradeiro esforço de impedir que o tempo tudo apagasse ou um acto final de expiação.

Não minto se disser que aqueles sinais, resistentes ao tempo, que no seu conjunto contavam séculos de histórias, dramas, sofrimento e, decerto, também redenção foram tão avassaladoramente esclarecedores que nada do que li ou experimentei depois me elucidou tanto. O abandono de recém-nascidos é antigo como o mundo, existiu em todas as classes sociais, consta de muitas das lendas e contos que passaram de geração em geração. Heróis da mitologia e figuras bíblicas foram mesmo despojados de qualquer maternidade como se assim assumissem mais plenamente a sua grandeza: Rómulo e Remo alimentados por uma loba, Moisés deixado numa cesta deslizando pelas águas do Nilo até às mãos com- passivas da irmã do Faraó. Ao longo de séculos, gerações de mulheres abandonaram os filhos e em muitos casos esse foi, ainda, um acto de amor.

Os tempos modernos criaram a ilusão de que tais factos, agora apelidados de “fenómenos”, eram residuais, que as causas que os provocavam iam desaparecer. Não foi assim. A Roda acabou mas foi substituída por uma pirâmide burocrática sem coração e sem rosto. As mãos que, após o toque da sineta, faziam girar a roda e acolhiam a criança exposta foram substituídas por um Estado que, como se viu em Portugal, deixa impunemente que as crianças sejam usadas e abusadas. A condição humana é imutável e a sua pseudo-sofisticação parece não ter resultado.

Prova disso mesmo está no recente relatório do Conselho da Europa sobre as novas Rodas ou as “Caixas de Bebés”, que proliferam oficialmente em países europeus como a Suíça, Itália, Alemanha e Bélgica, nos Estados Unidos e, mais recentemente, no Japão. Aos argumentos contra, assentes no incitamento a práticas criminosas e à desresponsabilização dos progenitores que estas Caixas podem fomentar, surgem os argumentos a favor, da preservação da integridade física e da vida destas crianças. Acresce que as novas rodas acarretaram uma salutar alteração legislativa: criança deixada na Caixa é imediatamente registada e, decorrido um curto período em que os pais a podem reclamar, é entregue sem mais formalidades aos candidatos à adopção.

Este realismo lúcido confortou-me. Tanto, devo dizê-lo, como me tem inquietado a cartilha oficial do abandono, em Portugal. Muitas crianças, poucos sinais…

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Os sinais dos expostos